O porquê do Céu ser Azul



Nas ultimas semanas não se falava em outra coisa. A grande final do programa Big Brother Brasil em sua décima e sofrida edição ocupou boa parte das colunas de alguns tablóides e revistas especializadas em entulho social.

É. Muita gente gosta, muita gente só assiste porque todo mundo está assistindo, outras pessoas assistem porque quer ajudar o caipira pobre, e tem gente que precisa encontrar logo seu novo fast-ultra-blaster-sexy-ídolo e por isso assiste também. Eu até reconheço alguns valores desse “jogo” Global, mas o que aconteceu nesta ultima edição do programa foi, de fato, extraordinário por parte de seus idealizadores. Depois de lançar a moda em nosso país, modificá-la por dez vezes não é uma tarefa tão fácil quanto se imagina. Mas parece ter bastado colocar um punhado de homossexuais na casa que se fez o diferencial necessário para mover novamente milhões de pessoas de sua rotina, pautando a nova temporada do reality show como principal contribuinte para o assunto do dia.

Não deu outra, a casa deu Pitit. Morango confrontou os homens e mulheres que viraram o rosto para ela, e logo apareceu sua mãe explicando sobre sua personalidade forte desde criança, vendendo tudo isso por um preço bem maior do que realmente valia. Serginho, com sua presença excêntrica e pintosa conquistou os telespectadores por ser uma espécie de “estereótipo engraçado do assunto que todo mundo trata com seriedade”, e não dou dois meses para ele estrear na TV como repórter de algum programa-meio-lixo. Ele até já fez o quadro “Repórter por um dia” do programa Fantástico deste ultimo domingo. Morra! E quanto ao Dicésar...? Bom, Dicésar era a tiazona da casa. Sempre tendo cuidado com o que fala, com quem fala e como ele fala... no final ele não falou nada que fosse muito relevante. Mas acontece que esse era o núcleo dos coloridos que viraria a maior arma dessa edição para alavancar os números do ibope este ano. Junte isso à presença do bad boy Dourado, e BOooOm! Polêmica, intrigas, brigas, audiência!

E tooome patrocinadores, e tooome campanhas de parcerias, e tooome merchandising que, diga-se por passagem, este ano foi BEM mal feita! Que prova era aquela da Minuano caindo nos olhos do povo? Aff... E aquela prova que os participadores tinham que beber diversos copos de Guaraná Antártica ao jogar um dado? Quem tirava zero comemorava por não precisar beber o equilavente em números de copos com 300ml do refrigerante, e a Lia vomita tudo no final da prova!? Que mensagem quiseram passar com esse merchan? Eu Mereço!? Essa prova só passou no canal fechado... Menos mal!

Mas o mais legal é jogar um cara como aquele, duas vezes no mesmo concurso, e avaliar como ele se comporta em uma “sociedade limitada” em sua segunda chance. Se fosse em outro canal (Discovery Channel, por exemplo) eu acharia mais interessante ainda assistir como o Dourado estabeleceria sua conduta de “macho dominante territorial”. Afinal, é na lei da selva que o mais dourado ganha, não sabia?

Acontece que o BBB não se trata mais só de um jogo psicológico. Acontece que o BBB nunca mais vai se tratar só de um programa que apresentará só por alguns minutos uma faceta da vida de alguns “sortudos”, deixando os telespectadores voltarem a suas rotinas normais depois de ter acabado a “espiadela do dia”. Não! Pra vocês terem uma noção, tem gente que fazia festa em sua casa só para acompanhar as festas do BBB! Imagino eu chamando amigos pra curtir uma noitada ao som de Nelly Furtado, na Cia de Fernanda, Lia, Cadu, Dicésar, “Dougago” e Serginho... Só que nós vamos estar no bairro da Aerolândia, e eles numa mansão cinematográfica da Rede Globo...

Um canal como a Rede Globo de Comunicação age diretamente sobre a forma como seus espectadores pensam, agem e falam. Quer queira, quer não! Ficou claro a edição cinematográfica deste ano, e isso não deveria ser tratado com tanta leviandade, eu sei. Isso é sério, isso cria julgamentos, isso multiplica condutas e acabou dividindo opiniões, transformando o horário nobre da televisão brasileira em um canal para a disseminação de pensamentos como “Heterossexuais não pegam AIDS”, ou coisas do tipo. Reproduzir esse tipo de conceito, galera, destrói anos de investimento público em campanhas contra tais doenças sexualmente transmissíveis, e nem estou comentando o que isso refletiu à classe homossexual.

O Brother Dourado (vencedor do prêmio de Um Milhão e meio de reais do programa que em tradução significa “grande irmão do Brasil” - não canso de pensar nisso!) deu aulas de 'como não se comportar se você quiser uma vida social saudável'; Expôs algumas vezes sua conduta “anti GLS” com argumentos maquiados e outras vezes sem um mínimo de esforço para parecer sutil, ensinou com quantos músculos se faz um bad boy e demonstrou que é com cara feia que se resolve os assuntos discutidos na hora do almoço! Ele ponderava os assuntos discutidos na mesa? (risos) Criação inglesa pra isso ele tem, certo? (mais risos... tipo da Paola Bracho agora).

Dourado simplesmente transmitiu pensamentos homofóbicos, egoístas e degeneradores para 42% das televisões ligadas desse país naquele horário. E o povo, apoiando-o, o agraciou com o prêmio de um milhão e meio de reais. Legal, né? Ok...


O céu é azul, gente, porque deus é homem... e Heterossexual!!!
Pronto, também quero um milhão e meio de reais porque fui um autêntico idiota. Cadê?

Poupe-me. Esse tipo de programa até serve pra muita coisa, reconheço. Não é nada contra o lixo televisivo que o BBB representa, não. É a constatação que grande parte do povo brasileiro nasceu para se comportar como “mulher de bandido” que me irrita. Depois das merdas, alguém pede desculpas (ou constrói alguma ONG no caso de alguns artistas, ou terminais no caso de alguns políticos) e pronto! Perdoamos e logo adicionamos no Orkut e MSN novamente.

Isso é uma piada.
Somos uma piada sem graça.