Atravessar-me-ei.


De quantas coisas nessas vida se pode ter uma certeza causticante, com aquela veemência de transbordar pelos poros? Não muitas, né? E isso não é medonho? Quer dizer... as vezes dói não se ter certas certezas. Principalmente sobre aquelas coisas que vêm do coração - ou de uma projeção, como queira dizer. 

Os sonhos sempre me foram bastante importantes. Eles criam e recriam sentimentos, momentos, situações, com uma força tão lúcida, tão verdadeira. Uma "certeza que era verdade". Mas nem era. Ou era? Se falarmos de momentos que já passamos, e gostaríamos de esquecer, não deixa de ser verdade. Uma re-verdade. Há a experiência novamente. A certeza causticante. 

Mas quando os sonhos nos projetam o vislumbre de algo que gostaríamos de alcançar... aí é muito bom. Mas é só um pedacinho de certeza. Não é certeza toda. Não aconteceu, e a possibilidade de não acontecer também é grande. Tenso, né, pensar assim? A certeza, neste caso, é que o sonho acaba e temos que atravessar o dia com ou sem ele.

Atravessar-me-ei pelos sonhos, então, mesmo sozinho, até o dia em que eu não acorde mais. 
 

Nômades Digitais.



Tive o prazer de encontrar em meio as minhas peregrinações na internet um grupo autointitulado Nômades Digitais, que levantam uma bandeira - ou manifesto, como chamam - em prol de uma vida menos emoldurada pelos costumes defasados de nossa sociedade ainda muito omissa às particularidades de cada um.

Trata-se de afirmar que, sim, pode-se ter uma vida menos amarrada, menos cinza, menos dependente da concepção arcaica de Felicidade que somos bombardeados há gerações. Me refiro à máxima que rege que, para ser feliz e ter sucesso na vida, precisamos ter tudo dentro dos conformes sugeridos; um emprego fixo, ganhar relativamente bem, casar, ter filhos e viver esse Sonho (ou sono?) Americano da época da Revolução Industrial. Mostram, os Nômades Digitais, que com a chegada da internet e as ferramentas que elas podem fornecer aos empreendedores contemporâneos, que uma forma de trabalho muito além do que imaginamos está surgindo ao horizonte.

Que todos nós já sabemos que, sim, podemos mudar de emprego quando não estamos felizes nele, já sabemos. Pode ser mais complicado para alguns, menos complicado para outros, mas sabemos que é possível. O que muitos não fazem ideia, ou talvez não tenham muitos exemplos para contar é sobre esta forma extremamente alternativa, moderna, iconoclasta de que prestar serviços aqui e morar na China é bem mais fácil e possível do que imaginamos. E mais do que isso, de não estarmos presos a somente um local (escritório, estado, país!), termos a possibilidade de "montarmos" nosso próprio escritório em qualquer lugar, desde um café em Buenos Aires ou até à beira de um lago em Chiang Mai na Tailândia é uma proposta possível, e financeiramente viável se houver o planejamento necessário (e o desprendimento pessoal de certos conceitos) para tal. 

Enfim. O site dos caras é um achado que também quero constar aqui. Inúmeros são os textos inspiradores, sobre mudanças de concepção, da forma como se vê o exercício profissional, a quebra de paradigmas e a coragem que muitos deles (Nômades) contribuem em relatos para o site é uma coisa de encher o espírito. Ao final do longo texto, mesmo que não faça parte dos meus planos abdicar de tudo aqui e me jogar no meio do mundo, termino-o me sentindo menos sozinho com meus pensamentos e sofrimento que vinham da sensação estar vivendo uma vida que não era a que eu queria. 

Tem mais gente quebrando conceitos.
 

Papéis Assinados.


E assim, se concretiza mais um passo.
Inscrição feita na Universidade, as cadeiras escolhidas e o calendário montado. Muita força, leitura e visão!
 

Novo Degrau.


Primeiro dia no novo emprego. Uma situação totalmente diferente, fui convidado a fazer parte de uma sociedade em uma empresa já madura, outrora minha fornecedora em tantas situações (eventos), uma pessoa que estimo muito pela força, determinação e exigência. Concordamos muito em diversos pontos; ao sermos parecidos em níveis de exigência, em pro-atividade, em detalhes, e ao sermos, também, extremamente diferentes na forma de se relacionar com o outro. Isso, confesso, pode ser um ponto tenso em uma sociedade, mas sempre conversamos sobre esse assunto e acreditamos que, por isso, poderíamos ser muito bons juntos. 

A proposta é trazer vida à identidade institucional da empresa, renovar marca e melhorar sua participação no mercado frente à concorrência. Inclui-se aí uma nova proposta para suas redes sociais, site, papelaria, e até a cara da marca. Eu chegaria para mudar. Acho que estou, mesmo, com essa vibe.

Uma segunda parte da proposta será lidar com as pessoas e processos da empresa. Devido a minha vasta experiência em grandes empresas, minha então sócia vê, em mim, essa oportunidade de amadurecimento de seus processos internos, e de um canal com os colaboradores que seja mais humano, mais fluido, mais presente. Bom, fiquei lisonjeado pela confiança que ela demonstrou. E entendi seus motivos. Admiro, por demais, a força que ele teve até agora em dirigir uma empresa - mesmo de porte médio -, sozinha, e com tantas atribuições (segmento demasiadamente dinâmico, este, o de Organização de Eventos), e tendo que lidar com suas colaboradoras, rotatividade, falta de pro-atividade e compromisso da equipe. 

Essa "força", talvez, tenha se estabelecido de forma a criar uma certa rigidez com relação aos processos internos, ao cuidado pessoal sobre a equipe, sobre os funcionários. É a intolerância da excelência. É o "se não consegue fazer, vou lá e faço". E nisso, absorveu-se atribuições/funções/tarefas de outros que limitam a sua, inevitavelmente limitando ou estagnando o crescimento da empresa. Por isso a figura do novo sócio, do olhar para a empresa (marketing) e para os processos internos.

Quem sabe um primeiro laboratório para novos conhecimentos adquiridos pela nova graduação? Quem sabe. Novo degrau.
 

Travessia.

"Há um tempo em que é preciso abandonar as roupas usadas, que já têm a forma do nosso corpo, e esquecer os nossos caminhos, que nos levam sempre aos mesmos lugares. É o tempo da travessia: e, se não ousarmos fazê-la, teremos ficado, para sempre, à margem de nós mesmos".
 (Fernando Teixeira de Andrade)

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Em meu primeiro texto, Descortinar, falo de atravessar a cortina que nos esconde o que temos além disso aqui. De redescobrimo-nos. Sou formado em Marketing, por birra, e atuante ativo - ainda - desse mercado de trabalho. Mas após algum tempo de desconfortos, frustrações e necessariamente com a ficha caída de que não é nesta área que quero envelhecer e/ou passar mais tempo, descortinei a Psicologia. 

Diversas foram as áreas que pesquisei antes de decidir pelo Estudo da Alma (tradução literal do termo psico-logia), como falei no post Zona de Conforto. Aqui eu quero falar da travessia, em si. Sim. Com o aviso prévio oficialmente declarado, deixo a empresa onde trabalho daqui a exatamente 24 dias. Um novo salto. Sem entrar em detalhes sobre a experiência que passei na empresa em questão, e apesar de minha saída ser motivada por um convite de sociedade que me deixará mais confortável, sinto que é um tempo de travessia, quando dei um passo mais importante sobre meu futuro, sobre minha decisão. 

Quando falo de decisão, não falo só sobre a nova graduação. Falo sobre minha decisão de abandonar essas roupas usadas, esquecer aos poucos alguns dos caminhos que sempre me levam aos mesmos lugares, e preparar uma nova estrada rumo ao novo. Essa nova experiência, por exemplo, me dá novos insumos e desafios a serem trabalhos, além de criar um ambiente favorável para o estudo dessa nova ciência. Já dei processo processo de entrada na Universidade de Fortaleza como candidato graduado ao curso de Psicologia, e tudo deu certo. Agora é só esperar findas os 29 dias de aviso prévio para findar um ciclo, junto com a Copa, e recomeçar em julho em uma nova etapa profissional junto ao período de escolha de cadeiras. 


Já namoro com a grade de cadeiras faz alguns meses, e isso me deixa cada vez mais empolgado. São tempos de Travessias e Agradecimentos.
 

Contardo Calligaris

Há cerca de três meses, minha terapeuta me indicou um livro desse homem. Em Cartas a um jovem Terapeuta, Calligaris mantém um diálogo com aspirantes a profissionais do segmento em que ele já é referência. Caiu como uma luva para mim. Encontrei, em seguida, essa entrevista e agora registro aqui.



Foi com seu mestre, o psicanalista francês Jacques Lacan (1901-1981), que Contardo Calligaris aprendeu que o transtorno mais grave que uma pessoa pode ter é ser, digamos, “normal”. Consequentemente, aprendeu também, o pupilo, que para ser saudável, o ser humano necessita ter, ao menos, uma neurosezinha aqui e outra ali. Assuntos como esses fascinam tanto Contardo que, aos 65 anos, o psicanalista italiano, nascido em Milão, mas radicado no Brasil desde os anos 1980, assume continuamente o seu maior gosto: trabalhar. Não é fora do comum, portanto, encontrá-lo em seu consultório durante 12 horas diárias e saber que, no tempo restante, além de poucas horas dedicadas ao sono, ele ainda faz exercícios, lê três livros por semana, produz uma coluna semanal para a Folha de S.Paulo e ainda preserva suas idas a cinema, teatro e restaurante. Quer mais? De um ano para cá, ele vem se dividindo entre os roteiros e as gravações da série Psi, que estreia dia 23 deste mês no canal HBO Brasil – e simultaneamente em mais 22 países da América Latina –, e é baseada em seus livros O conto do amor e A mulher de vermelho e branco. Em foco estão as aventuras de Carlo Antonini (vivido por Emílio de Mello), psicólogo, psiquiatra e psicanalista que tem a vida fora do consultório destrinchada junto com a história de outras personagens que exemplificam diferentes perfis psicológicos.

Membro da Escola Freudiana de Paris há quase quatro décadas, Contardo Calligaris não se importa em chocar seus colegas freudianos e lacanianos ao revelar que gostaria de fazer um ano de pscioterapia junguiana, assim como também não tem problema algum em encarar a sociedade ao expressar que a infância é uma idade totalmente idealizada e que as crianças são seres extremamente cruéis. Completa a descrição dizer que ele é encrenqueiro, intervencionista, gosta de se meter em brigas – claro que não como há 30 anos – e de resolver problemas sobre os quais não foi pedida sua opinião. Enfim, o psicanalista está bem longe de ser a pessoa normal que tanto abomina. Sorte a nossa! Afinal, Lacan não estava errado em dizer que a vida é realmente mais interessante quando há uma neurosezinha aqui e outra acolá.

Por muito tempo você teve oportunidades, mas optou por não adaptar os livros O conto do amor e A mulher de vermelho e branco para o cinema ou TV. O que, dessa vez, fez com que você mudasse de ideia? 

É uma pergunta interessante. Primeiro, porque, claro, é uma mudança de ofício, mas, enquanto romancista, eu sou um contador de histórias. Não sou fascinado por nenhum experimentalismo. Então, um seriado é uma  maneira de contar uma boa história e, sobretudo, construída ao redor de personagens que têm de ser sólidos, porque eles têm de durar de alguma forma, pelo menos o personagem principal. Isso, no fundo, não é muito afastado do trabalho do narrador e do romancista. Tem uma grande diferença que é de ser um trabalho coletivo; então, é preciso, realmente, se acostumar a isso, porque o romancista é Deus e todo mundo. Não tem problema, mas o escritor de cinema, sobretudo do Brasil, é inserido em um processo muito mais complexo. Agora, ainda por cima do ponto de vista da televisão brasileira, foi uma coisa relativamente nova. Aliás, na verdade, absolutamente nova como tipo de seriado brasileiro. Acho que nunca foi feito algo parecido. Não tem! Então, nasceu essa ideia, e procurei alguém que escrevesse comigo, porque é uma tarefa hercúlea. O roteiro de uma série de 13 episódios tem 800 páginas, não menos do que isso, em várias versões e andando em companhia. Mas, rapidamente, me encontrei com Thiago Dottori, que é o roteirista com quem, aliás, eu continuo trabalhando a segunda temporada.

O que as pessoas que já conhecem o personagem Carlo Antonini vão encontrar de diferente em Psi?
Várias coisas. Primeiro, os amores e os amigos são completamente diferentes, porque ele não mora mais em Nova York, voltou para São Paulo. Mas, no fundo, espero que eles encontrem certa permanência que é ele: essa figura um pouco bizarra, um cara que é psiquiatra, psicólogo, psicanalista – geralmente existem casos famosos, mas são poucos. Na maioria das vezes, alguém é ou psiquiatra e psicanalista, ou psicólogo e psicanalista, mas as três coisas são mais raras juntas. E um cara que tem um espírito, pelo menos aventureiro, tanto na sua prática quanto com poucas obediências de qualquer tipo, inclusive, de alguma forma, morais. Não por isso ele seria um devasso – não é nada disso, ao contrário. Mas digo “morais” no sentido em que acha que as escolhas morais são questões próprias, singulares de cada um. E um fascínio com essa profissão. Fascínio no bom sentido, não no sentido de ficar boquiaberto – é um pouco burro –, mas um interesse muito grande pela diferença extrema que, na verdade, é sempre muito menos extrema do que parece. É muito mais próxima, muito mais parecida com a gente. E essa relação com a diversidade da vida acontece na clínica, mas acontece também na sua vida cotidiana, na sua vida amorosa, por exemplo. É um cara que se aventura, faz escolhas amorosas que podem parecer um pouco bizarras.

Essa curiosidade do Carlo por situações diferentes, de sair atrás de um problema e tentar resolvê-lo, também existe em você?
Sim. Ou, então, quando não tem um problema, criá-lo (risos). Que também é outra maneira de ter que sair atrás de um problema. Sim, sou intervencionista, sou encrenqueiro, sou do tipo que, se tem uma briga, me meto. Sou briguento. Paguei a metade da minha faculdade com uma bolsa pelo boxe. Fui campeão suíço universitário. Só para dizer que sou encrenqueiro.

Nada como uma boa confusão então...
Gosto de uma pequena confusão, sim. Muito menos agora do que há uns 25, 30 ou 40 anos. Mas ainda entro em alguma confusão. Compro briga, sim. Peito!

E você, assim como ele, também tem repulsa pelo que é normal?
Também. Aprendi isso com o meu mestre, [Jacques] Lacan. Eu segui, durante muitos anos, as apresentações de pacientes que ele fazia a cada sexta-feira, ao meio-dia, no [Centre Hospitalier] Sainte-Anne, em Paris. Uma apresentação de paciente, você sabe o que é? Um paciente que foi internado, o residente que se ocupa desse paciente tem questões, então, ele é apresentado. Lacan apresentava-o para um público limitado, de pessoas convidadas, autorizadas, digamos que eram umas 70 pessoas, mais ou menos. Fiz isso no Hospital Raul Soares, na Clínica Pinel, em Porto Alegre, em Rosário. Existe cada vez menos, e é uma pena, porque é um instrumento pedagógico incrível. E também porque não existem mais hospitais psiquiátricos no sentido tradicional. Cada vez menos existem. Então, uma vez, Lacan disse sobre um paciente: “Qual é o problema dele?”. O residente falou: “Não consigo diagnosticá-lo”. E Lacan disse: “Ele é absolutamente normal”. Todo mundo deu uma risadinha, e Lacan acrescentou, o que deixou uma espécie de frio entre nós: “De todos os diagnósticos, a normalidade é o diagnóstico mais grave, porque ela é sem esperança”.



Então, a “normalidade” é um transtorno como outro qualquer...
Certamente. Não... Na verdade, é mais grave.

E o que é ser “normal”?
Pois é... Será que as pessoas querem ser normais? Normais ou não julgadas? Eu acho que o neurótico médio – que somos todos nós – sonha, idealiza o louco. Ele acha que o louco é “o cara”. E sonha em ser perverso. Ou seja, em ser alguém que realmente não teria todos os impedimentos que a neurose nos coloca, ou seja, os registros de culpa, as inibições. O que é uma pessoa normal? Uma pessoa realmente normal é uma que tem um registro de experiência miserável, extremamente pobre. Pode ser que seja relativamente pouco sofrido, mas é também dramaticamente desinteressante. Às vezes, quem pode ser normal são pessoas que têm ou tiveram uma insuficiência cultural-afetiva muito grande. Então, não conseguem... Não é elaborar a experiência no sentido de falar as suas experiências, mas sabe aquela coisa que você atravessa a vida, vê as coisas e isso não lhe evoca nada? Tudo acontece como está acontecendo e isso não me evoca nenhuma lembrança. Normal é quem não tem nada disso. É quem tem uma experiência miserável, no sentido de pobre. Um registro de experiência extremamente pobre.

Não tem interesse também?
É a mesma coisa. Interesse muito limitado. Por exemplo, o sexo parece ser fisiológico. Ausência de fantasias sexuais. O sexo é: “23h30 a gente apaga a luz, está na cama, transa”. Está previsto.

E essa normalidade é atribuída ao quê?
De certo ponto de vista, aquilo pode ser considerado um tipo de saúde mental. Porque você, sem dúvida, tem um nível de tormento individual, de angústia, muito menor do que o neurótico médio. Mas, geralmente, aquele tipo de normalidade é construída de maneira extremamente sólida e eficiente em cima de um vulcão adormecido.

Pensando dessa maneira, uma neurose é sempre interessante.
Somos todos neuróticos, em tese. Graças a Deus, realmente normais são muito poucos. Somos todos neuróticos. Mais loucos do que nos imaginamos – loucos, digo psicóticos –, e em certo número, somos todos, enquanto neuróticos, capazes de ser perversos de vez em quando. O problema mais interessante não é o de viver tranquilo, é o de ter uma vida interessante. Isso que é importante. Inclusive, a que uma psicanálise se propõe? Se propõe a tornar a vida de alguém mais interessante. Não garanto que os meus pacientes venham, sei lá, a sofrer menos ou a ter uma vida mais tranquila. Aliás, o que eu espero é que tenham uma vida mais interessante.

Existe algo como uma cura ou alta, do ponto de vista da psicanálise, para os pacientes?
Existe, mas é uma transformação. Porque na medicina, em tese, curar significa trazer você ou levar você a uma espécie de volta à situação anterior. Quer dizer, você está com gripe, você quer ficar como antes da gripe. No campo “psi”, isso não existe. Você tem uma depressão, você não vai poder voltar ao que era antes da depressão. Pode se tornar outra coisa, que não é nem a depressão que você tem agora, nem o que você era antes. O processo é transformador. Então, “curar” é sempre um pouco problemático. E, além do mais, a apreciação é subjetiva, porque, afinal, é o paciente quem vai dizer que está melhor ou que está suficientemente bem para poder, por exemplo, parar um tratamento. A apreciação é dele. Posso verificar que você não tem mais febre, que você não tem mais um tumor. Tudo bem: não tem mais, não está lá. É muito diferente.

Quem faz análise geralmente fala que todo mundo tem que fazer. E quem não faz, fala que não é assim. Como é, na verdade?
Acho que não é verdade que todo mundo tem que fazer. Acho que é um equilíbrio complicado, uma alquimia complexa. Não sei nem se a gente pode dizer que todo mundo pode fazer. “Poder”, do ponto de vista de ter, sei lá, isso a grande maioria pode, tem a possibilidade de fazer uma análise, mas é preciso uma predisposição subjetiva. É um equilíbrio curioso, porque é tempo, é uma complexidade na vida. Não é necessariamente penoso. Pode ser extremamente interessante; e deveria ser. Teve uma época em que estava na moda pensar que uma análise deveria ser necessariamente um processo penoso e angustiante. Que, aliás, se você não se angustiasse, isso demonstraria que você não estava tocando nas questões importantes. Pode ser um processo divertido – divertido, além de interessante, no sentido de que um paciente e um analista podem tranquilamente rir em uma série de circunstâncias. E não é raro que seja um processo em que o cara espera o dia da sua sessão ansiosamente.

Você faz análise?
Neste momento, não. Minha última análise foi nos Estados Unidos. Faz bastante tempo que não me reanaliso. Deveria acontecer daqui a pouco, aliás.

Como funciona com você?
São situações assim, na verdade, na minha idade – não sei se tem muito a ver com idade, mas, enfim – houve pessoas com as quais eu fiquei a fim de fazer uma fatia de análise. Porque eu queria ver, queria ouvir uma coisa diferente do que já tinha ouvido. Pessoas que justamente não eram da minha formação. Hoje, provavelmente – coisa que vai chocar a maioria dos meus colegas –, acho que eu faria um ano de psicoterapia junguiana, me interessaria.

Eles ficariam chocados de que forma?
Ah, porque a maioria dos meus colegas freudianos – lacanianos nem se fala – não iria entender; é como se eu dissesse que vou me confessar com alguém de outra denominação. Tipo: “Vou parar de ir à missa. Agora vou à mesquita no domingo”. Ou, então, começo a frequentar a sinagoga no sábado. Em regra, é bem assim.

Você acredita ser mais flexível do que eles?
Não, não. Não é que acredito, eu sei que sou muito mais flexível. Mas eles não chamam isso de flexível, porque parece uma coisa positiva. Acho que eles consideram que tem uma dívida específica com a disciplina. Acho que eu tenho uma dívida com a psicanálise. Com o desejo, sem dúvida, de Freud muito mais do que com a doutrina de Freud. Me interessa tudo o que saiu do desejo de Freud, inclusive Jung, por exemplo. E mesmo coisas que não saíram do desejo de Freud, porque tem um monte de psicoterapeutas. Fiz psicoterapias rogerianas (método de Carl Ransom Rogers, 1902-1987) e companhia, que não são propriamente pós-freudianas, e achei superinteressante.



Uma, das muitas questões discutidas na série, é que ninguém gosta de ser mudado... 
Isso. A gente passa a vida inteira circundado por pessoas que têm o projeto de nos moldar. Na hora, pode até parecer normal, mas é um saco, né?!  E isso continua. Mas na infância e na adolescência é muito mais, inclusive depois, até no trabalho. Você se lembra daquele filme bonito, Mestre dos mares? É uma história de Russell Crowe, que é comandante, e tem esses dois meninos de 13 ou 14 anos que, na verdade, são oficiais a bordo do navio. É um deles que comanda as baterias de bombardeio do navio. Eles são oficiais da Marinha! Um deles perde um braço e fica lá sem braço. Sobrevive. O espectador médio hoje vê aquilo e não entende. Não processa como sendo normal. Você entrava na escola militar de guerra aos 12, 13 anos, fazia os seus cursos, passava, saía. Valeu. Um aprendiz saía de casa aos 7 anos, na França da Idade Média. Se eu era marceneiro, o meu filho se destinava à marcenaria – naquela época, o que se previa era a reprodução; então, aos 7 anos, o meu filho ia aprender a ser marceneiro. Mas não podia aprender comigo, porque eram inteligentes, eles entendiam que não era com os pais que se aprende. Então, eu tinha que mandá-lo para outro marceneiro dentro da confraria, mas não era na mesma cidade. Era 600 km, 700 km... Eu ia rever meu filho dez anos depois, formado. E ninguém morria. Você vai dizer isso para uma mãe hoje?

Você diz em relação à superproteção extrema, não?
Nós somos totalmente infantólatras e a infantolatria é um dos grandes traços da contemporaneidade. E dizer que as crianças são capazes de grandes crueldades, isso é uma coisa que hoje é quase um escândalo. A criança pode ser extremamente agressiva. Não tenho uma simpatia, a priori, por crianças. Acho que crianças são seres cruéis, extremamente cruéis, capazes das maiores maldades. Freud dizer em 1905 que as  crianças tinham uma sexualidade era um negócio! Como? As pessoas não viam as criancinhas se masturbando em casa?

A grande maioria não quer enxergar isso...
Não quer, absolutamente. A infância continua sendo uma idade totalmente idealizada. Aliás,  continuamos, cada vez mais, tentando criar uma idade durante a qual as crianças, esses seres, não vão ter preocupações de nenhum tipo. Bom, claro que isso funciona como pode, mas a nossa idealização da criança é muito grande, muito forte.

E quem resolve não seguir por esse caminho recebe muitas críticas...
Sim, claro. Imediatamente. Mas a gente não pode se queixar tanto assim, no fundo, porque, sobretudo a partir dos anos 1970, progressivamente, a sociedade ocidental criou uma espécie de ideologia positiva da diferença. Tanto que a diferença parece ser ou é apresentada como um valor em si. Por exemplo: é bom que o ambiente de trabalho seja repleto de diferenças étnicas e o caramba, pessoas de todos os tipos, porque essa inclusão vai – e agora tem toda uma justificação positiva – ter um efeito positivo na decision making. Porque, claro, vão participar pessoas que pensam, sentem e veem o mundo de maneiras tão diferentes. Isso é realmente muito novo. Se falasse isso em qualquer empresa nos anos 1950 ou 1960, iam achar que você estava louco. Então, certamente a margem de convivência das diferenças aumentou muito. Hoje não é, pelo menos nas grandes cidades do Ocidente, impossível ser homossexual, não é impossível conviver com um casal homossexual. Até os anos 1980, era tipo aquela política Clinton: “Don’t ask, don’t tell”. Mas você não  imaginava chegar ao seu escritório e colocar a fotografia de um namorado ou namorada do mesmo sexo em cima da mesa em um porta-retratos. Não, você não ia fazer isso não.

Entrevista divulgada em 10/03/2014, pelo site Revista da Cultura.
FOTOS RODRIGO BRAGA/3FILMGROUP
 

Continue Curioso.

Zanzando pela internet, absorvendo todo tipo de conteúdo que mencionasse mudanças de hábitos, carreira, segmento de trabalho e até visão sobre a vida, descobri diversos blogs e canais que me ajudaram bastante nessa nova-nova-fase

Um desses canais, o primeiro que me atravessou como uma lança, foi o ContinueCurioso. De extremo bom gosto, um projeto lindo e tão bem feito, proposta irresistível para mim. Fiquei realmente encantado pela proposta dos criadores, e quero deixar aqui o meu MUITO OBRIGADO. Acho que falo por tantos que se identificaram em seus videos e casos inspiradores. Abaixo, ponho o vídeo que me encheu os olhos e o coração:


O quão é importante vermos, de fato, que sair de um padrão é realmente possível. O padrão que nos poda, nos compacta, nos limita e fere. É libertador, e potencializador. Posto, então, aqui esse achado. 

Site: www.continuecurioso.cc
Canal do Youtube: www.youtube.com/continuecurioso
 

Zona de Conforto.

Sempre achei que tudo aquilo que nos tira do centro, desestabiliza, que nos tira de nossa zona de conforto poderia ser um momento raro para observarmos o que somos capazes de realizar, o quão forte somos ou o poder que temos de surpreender a nós mesmos.

Continuando com os escritos sobre minha escolha por mudar de segmento profissional, saindo do Marketing e indo para a Psicologia, lembro-me que minha zona de conforto há muito não é mais vista! Posso dizer que há uns 2 ou 3 anos, no meio da graduação em Marketing e com uma vasta bagagem profissional, senti-me acordar no meio da viagem percebendo que não é mais a aquele destino que eu queria para mim. Mesmo não entendendo esse sentimento de angústia com uma pitada de desespero, fui sendo empurrado aos poucos para fora da minha zona de conforto.

No primeiro momento, houve a negação. Tentei por diversas vezes abstrair-me da desconfiança de que, pela vibração do meu corpo, o destino para o qual fui trabalhando-me não era mais o destino que minha alma queria, e que reclamava a cada oportunidade. O stress me abatera como um dardo envenenado, e mesmo com atividades e hábitos saudáveis e ditos como desestressantes, tudo se tornava paliativo ao passo  que minhas reflexões me colocavam em cheque sobre meu real desejo de continuar nesta função. Com o passar dos meses, fui me perguntando quais seriam os reais problemas que estavam fazendo afastar-me do caminho traçado.

Acho que todos que já passaram por esta situação, alguma vez, se perguntaram: O problema é o salário? Não. O problema era o cargo? Não. O problema era o plano de carreira? Não! Então o que diabos estava acontecendo? A resposta veio aos poucos: Eu havia perdido o interesse de trabalhar no segmento do Marketing, e direcionar toda minha capacidade para criar estímulos, desejos e necessidades de compra em pessoas que não necessariamente precisariam (ou deveriam) adquirir tal produto ou serviço. Desencantei-me com a forma como esta ciência é aplicada no mercado, e espantei-me com o pseudo legado que eu haveria de deixar para a posteridade se continuasse neste esquema. É isso. Eu havia tomado a pílula vermelha e não havia mais volta. 


Depois veio a conformação. Aceitar que eu deveria mudar, de novo, mas dessa vez com uma intensidade maior como nunca eu havia feito, talvez, até aquele momento. Não era fácil trocar de segmento, onde você já tinha criado raízes profundas (network, carreira, certo nível de salário e estabilidade). Mas era isso ou sentir-me vazio e incompleto em troca desses tópicos que citei nos parênteses. Permiti-me, então, a sair do emprego mais estável e me jogar em férias de autoconhecimento! O salto. 

Não, não fui comer-rezar-e-amar em uma tour pelo mundo, mas permiti-me alguns excessos como estes também, mas mais ainda o excesso de dar-me este tempo. Limpar minha personalidade influenciada pela prática de até então. Permiti-me fazer um curso de Teatro, dancei Tango, voltei a cantar em Coral, engajar-me em peças musicais,  e pesquisar como um novo eu seria, sendo do jeito que eu queria. Pus-me a avaliar novas formas e caminhos, estabelecer critérios que me ajudassem a visualizar o que eu realmente gostaria de desempenhar; para mim, e para o mundo onde vivo. Foi bastante difícil, tendo em mente que eu não tinha a mínima ideia do que eu poderia fazer além de Comunicação Publicitária, profissionalmente. 

"Conhece-te a ti mesmo" foi a lei. O que havia em mim que pudesse me apontar por onde eu deveria seguir? Em meus hobbies, em minhas concepções de felicidade e de qualidade de vida deveria haver algum indício que poderia me dizer como começar a construir uma nova projeção de mim mesmo em meu ofício. Por que era tão difícil respondermos a tais questões, aparentemente tão simples? Porque, na verdade, eu nunca precisei fazer essas perguntas a mim mesmo. Tive a sensação de que eu havia sido programado, sim, para viver em linha reta, sem curvas ou contratempos. Nunca precisei olhar para o lado até este momento. Como um padrão que se gruda à retina e nos condiciona a replicar histórias, gerações, e agora meu corpo vibrava em outra sintonia, e eu precisava entendê-la. 

Sobre a pesquisa que fiz, junto à uma boa Terapeuta, procurei começar pelas áreas que eu achava mais interessantes. Aspirações, projeções, superfície de outros ofícios que eu conhecia. Mas foi por aí que comecei meus experimentos; Gastronomia, Arquitetura, Teatro, Psicologia e até Astronomia! Meu Deus! Eu sou um poço de curiosidades! Foi quando tirei à prova do quão denso sou. Tive um trabalhão para pautar todos os assuntos que eu queria conhecer, ao menos mais do que eu já conhecia. Eram muitos mundos diferentes entre si, e eu me reconhecia um pouco em cada um deles. O experimento de procurar profissionais atuantes desses mercados, saber mais de suas rotinas e exercícios me mostrou os parâmetros desconhecidos que eu  tanto procurava, e cortei boa parte da lista. Alguns dessas ciências ainda perduram na lista, mas agora como hobbies paralelos à escolha que fiz para minha próxima graduação, posto que reconheci na Psicologia a melhor agenciadora para minha viagem por tantos mundos.
 

Descortinar.


v.t. Correr a cortina, para mostrar ou patentear. Distinguir, notar, descobrir, enxergar. Revelar, mostrar. Avistar ou descobrir ao longe. Abrir clareiras em (mata ou floresta).

Sinônimos de Descortinar: 
avistar, descobrir, distinguir, enxergar, notar e patentear.

Definição de Descortinar:
Classe gramatical: verbo transitivo direto.
Tipo do verbo descortinar: regular.
Separação das sílabas: des-cor-ti-nar.

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Descortinar a si mesmo é, ao meu ver, um processo perene para aqueles que se propõem. Descortinamo-nos várias vezes ao longo da vida, penso eu. Mudamos. Mas poucos têm a capacidade de permitir-se descortinar, e um número menor ainda de pessoas possui a força necessária para atravessar os limites destas cortinas. De tentar, se jogar. Saltar por através delas.

Não digo que aqueles que o fazem são mais corajosos, apesar de que essa prática exige certo punhado de coragem em determinado momento. Talvez o que me impulsione no atravessar das cortinas que descortino seja o medo de ficar. "Ficar à margem de mim mesmo". Corajoso, fugitivo ou covarde? Prefiro pensar em "descortinador" e deixar os outros rótulos falarem por si mesmo, depois, ou para outrem. Meio que não me interessam tanto. 

Começo este blog para marcar e me acompanhar em mais uma nova jornada; finalmente decidi começar uma segunda graduação. Depois de alguns anos de indefinição, experimentações, pesquisas e terapia, decido pela Psicologia como agenciadora dessa nova fase. É um processo de redefinição do meu eu profissional que respinga, ou é respingado, e muito, na/pela minha concepção do meu eu pessoal, descortinando novos mundos uma vez que não mais consigo ser atravessado pelo atual.

Não tenho a pretensão e nem o objetivo de conseguir leitores aqui. Nem comentários, compartilhamentos, engajamento social-digital. Elementos que são tão relevantes para a blogosfera e demais redes sociais - e digo isso como profissional formado em Marketing, enjoado com os valores que inflamam essas novas mídias. Na verdade, este blog servirá como um diário de bordo. Como algo feito mais para minha própria documentação do que para qualquer outro fim. Entretanto, se vier a servir aos interessados no caminhar de quem está começando em psicologia, ou mesmo servir àqueles querendo trocar de segmento profissional, como tantos outros blogs me serviram para tal, sejam bem-vindos.

Obs.: Post escrito em Julho/14 e programado para inserção em Março/14 na tentativa de obedecer à cronologia dos fatos da forma mais fiel possível. Inicialmente, este blog tinha a finalidade de somente receber meus textos de questões mais pessoais, antes exibidos e outro site, na tentativa de separá-los do antigo canal de uma proposta mais diversa.